Ele tinha 18 anos, era órfão, foi criado pela avó e lutava contra o vício em crack. Desapareceu em uma sexta-feira e foi executado com tiros na cabeça em uma estrada de terra em Goiás. A gravação do crime ficou esquecida em um celular por dois dias — até que a polícia abordou um adolescente fazendo manobras perigosas em uma moto. O que se descobriu a partir dali expôs a frieza de três criminosos, a delação como sentença de morte e a indiferença de um sistema que quase enterrou a vítima como indigente.
Quem era Marcos Vinícius
Marcos Vinícius Monteiro Caixeta tinha 18 anos e trabalhava como vigia de carros (também descrito como lavador de carros) na região de Goiânia. Era órfão: o pai morreu há cerca de 15 anos e a mãe, há 11. Ele foi criado pela avó, Rosalina Dias Caixeta, de 72 anos, no Setor Balneário Meia Ponte, região norte de Goiânia.
A vida de Marcos não foi fácil. A avó relatou que tentou afastá-lo das drogas, mas não conseguiu. “Tentava arrumar escola para ele, emprego, mas ele não gostava e começou a mexer com droga. Primeiro, maconha, mas a situação se complicou quando ele começou a usar crack, há uns três meses”, contou Rosalina.
A família já havia sido devastada pela violência. Em junho do ano anterior, o irmão mais velho de Marcos, de 21 anos, também foi assassinado com um tiro na cabeça, no Setor Urias Magalhães, em Goiânia. A avó, agora, cuidava do neto que restava.
O desaparecimento e o corpo sem nome
Marcos desapareceu no dia 21 de novembro de 2014, uma sexta-feira. Seu corpo foi encontrado no dia seguinte, 22 de novembro, em uma estrada de terra na região de Senador Canedo, na Região Metropolitana de Goiânia.
O corpo foi encaminhado ao Instituto Médico Legal (IML) de Anápolis, a cerca de 55 quilômetros da capital, e registrado como indigente — ou seja, sem identificação, sem nome, sem história.
Marcos estava morto e enterrado nos registros como um “ninguém”. Sua família, desesperada, ainda o procurava.
A descoberta que mudou tudo
O caso só veio à tona por um acaso. Na noite de segunda-feira, 24 de novembro de 2014, policiais militares abordaram um adolescente de 16 anos que fazia manobras perigosas com uma motocicleta em Goiânia.
Além de dirigir sem habilitação, o adolescente portava porções de cocaína e crack.
Ao verificarem o celular do garoto, os policiais encontraram algo muito mais grave: vídeos gravados da execução de Marcos Vinícius. As imagens mostravam todo o contexto do crime, desde o momento em que a vítima ainda estava viva, sendo levada no carro, até a execução na estrada de terra.
O vídeo da execução
As imagens, gravadas pelos próprios assassinos, são de uma frieza perturbadora.
O vídeo começa com Marcos sendo conduzido dentro do próprio carro pelos três criminosos. O trio zombava da vítima durante o trajeto: “Chegou sua hora. Olha a missão hoje”.
Os assassinos perguntavam repetidamente a Marcos a quem ele teria “caguetado” (delatado) para a polícia. A vítima era coagida a confessar a delação.
O carro para em uma estrada de terra. A execução começa.
O adolescente de 16 anos atira em Marcos. Em seguida, ele pisa na cabeça da vítima já caída e diz: “Desgraçado, vai com Deus”. Outro criminoso se aproxima e dispara mais cinco vezes contra o corpo já baleado.
Tudo foi filmado. Tudo foi mantido no celular do assassino. Como se fosse um troféu.
A frieza do assassino de 16 anos
O adolescente de 16 anos não demonstrou remorso. Na delegacia, confessou o crime com uma frieza que chocou até os investigadores.
“Eu que matei ele. O crime cobra caro, enquanto uns matam, outros morrem”, declarou.
O delegado Kleyton Manoel Dias, titular da Delegacia de Apuração de Atos Infracionais (Depai) de Goiânia, descreveu o espanto: “O comportamento dele é normal, frio, tranquilo. Chama bastante atenção o fato de uma pessoa tão jovem ter tanto desapego com a vida dessa forma. O que para a gente às vezes é tragédia, para ele é uma coisa normal”.
Outro delegado foi ainda mais direto: “Não existe humanidade naquele ser”.
Em conversa informal com a polícia, o adolescente ainda confessou outros dois homicídios: um no Pará, durante férias na casa da avó, e outro em Goiânia, na Avenida 85, após uma briga por drogas. A polícia apurava a veracidade desses relatos.
Ele também havia postado uma foto do crime em seu perfil no Facebook na tarde do dia 24 de novembro — dois dias após o assassinato e horas antes de ser apreendido. Em seu perfil, dizia ser “chefe na empresa Cracolândia”.
Os outros dois envolvidos
A polícia identificou os outros dois participantes do crime.
- Wolney Henrique Borges de Freitas, de 23 anos, conhecido como “Gordinho”. Era o motorista do carro e dono do revólver utilizado na execução. Trabalhava como auxiliar de carga e descarga. Foi preso no dia 30 de novembro de 2014, em Santa Tereza de Goiás, quando passava por uma blitz a caminho de uma pescaria. No carro, a polícia encontrou cocaína e um revólver. Em conversa informal com os policiais, confessou participação, mas fez questão de frisar que não foi ele quem matou: “Eu só participei, mas não fui eu quem matou. Na filmagem conta, quem matou, pisou na cabeça e tudo mais foi o rapaz que já está preso”. Ele admitiu ter atirado cinco vezes contra Marcos depois que a vítima já estava morta.
- Um adolescente de 17 anos, que aparece no banco traseiro do carro. Segundo a investigação, ele teria encomendado a morte de Marcos após ter sido delatado por ele para a polícia. A família do rapaz, que morava no Residencial das Acácias, disse não ter notícias dele. Ele permanecia foragido à época.
A motivação: a delação como sentença de morte
A principal hipótese da polícia, sustentada pelas conversas e ameaças no vídeo, é que Marcos Vinícius foi executado porque teria denunciado um criminoso à polícia.
Marcos era usuário de drogas. A delação — real ou suposta — foi o gatilho. O adolescente de 17 anos, que se sentiu traído, encomendou a morte. Os outros dois executaram.
A vítima foi interrogada sobre a delação, filmada confessando, executada com tiros na cabeça e teve o corpo chutado após a morte. Tudo gravado. Tudo friamente calculado.
O que aconteceu depois
O corpo de Marcos Vinícius foi identificado no IML de Anápolis na terça-feira, 25 de novembro, e liberado para sepultamento. Ele foi enterrado na quarta-feira, 26 de novembro de 2014, no Cemitério Jardim da Saudade, em Goiânia.
A avó, Rosalina, soube da morte pelos vizinhos, que viram a notícia na televisão. “Fiquei desesperada, sem saber o que fazer”, disse ela.
O adolescente de 16 anos foi sentenciado a 3 anos de internação em janeiro de 2015. Wolney Henrique Borges de Freitas respondia a processo por homicídio. O terceiro envolvido, o adolescente de 17 anos que teria encomendado o crime, seguia foragido.
O que esse caso expõe
O assassinato de Marcos Vinícius Monteiro Caixeta não foi apenas mais um crime violento em Goiás. Ele expôs, de uma só vez:
- A delação como sentença de morte no mundo do tráfico: uma suspeita, verdadeira ou não, basta para condenar alguém.
- A participação de adolescentes em execuções com frieza absoluta, sem qualquer sinal de remorso.
- A espetacularização da violência: o crime foi filmado, armazenado, compartilhado e até postado em redes sociais como se fosse uma conquista.
- A fragilidade do Estado: o corpo de Marcos ficou dois dias como indigente no IML, sem que ninguém o procurasse oficialmente. A execução só foi descoberta porque um adolescente foi pego fazendo manobras perigosas em uma moto.
Marcos Vinícius era órfão, usuário de crack, vigia de carros. Um jovem que a sociedade já havia deixado para trás antes mesmo de ser assassinado. Sua morte só ganhou atenção porque o assassino manteve o vídeo no celular. Sua história só foi contada porque a polícia abordou o homem errado na hora errada.
Ele foi enterrado como indigente. Depois, como vítima. Mas, para a avó que o criou e para o irmão que também perdeu para a violência, ele era apenas Marcos — o neto que ela tentou salvar e não conseguiu.









foi aqui perto de onde moro.
Não existe ressocialização para gente assim. O certo é colocar para trabalhar pelo resto da vida para a sociedade como construindo estrada, colheita de algodão, obras públicas tudo com um fuzil apontado para a cabeça 24h por dia.
São animais, não têm medo de morrer, o medo deles é trabalhar.
Expressão do mlk incio ao fim no vídeo MN, tentou correr mas foi de Vasco.
Não consigo vê atualiza adm