Santa Maria, 7 de dezembro de 2017. Uma noite que começou como tantas outras terminou em uma das cenas mais brutais já registradas na cidade. Marcelo Thomazette Flores, de 29 anos, foi perseguido por três irmãos, encurralado dentro da loja de conveniência de um posto de combustíveis e morto a golpes de facão. O crime, motivado por vingança, chocou a população, parou a região central do Rio Grande do Sul e deu início a uma longa batalha judicial que se arrastaria por anos.
O caso ficou marcado não apenas pela violência extrema, mas pela frieza dos executores: eles confessaram o crime, alegaram vingança e, depois, tentaram se defender no tribunal com a tese de legítima defesa. De um lado, a dor de uma família que perdeu um filho de forma violenta. Do outro, três irmãos que diziam estar retaliando uma agressão contra o próprio pai. No meio, uma cidade que assistiu a mais um capítulo de sua escalada de violência.
O crime: a perseguição até a loja de conveniência
Naquela quinta-feira, por volta das 21h30min, Marcelo Thomazette Flores entrou correndo na loja de conveniência de um posto de combustíveis localizado na Rua Euclides da Cunha, no bairro Menino Jesus, em Santa Maria. Ele não estava sozinho. Três homens o seguiam de perto. Eram irmãos. Estavam armados com facões.
A perseguição não começou ali. Marcelo já vinha sendo caçado pelos três. Ao entrar no estabelecimento, ele tentou se proteger, mas foi alcançado. Os irmãos o encurralaram e desferiram cinco golpes com dois facões diferentes. A vítima não teve chance. Marcelo morreu no local, antes mesmo que o socorro pudesse chegar.
O proprietário do posto e algumas pessoas que estavam no local conseguiram conter os agressores e os mantiveram ali até a chegada da polícia. Os três irmãos foram presos em flagrante. A cidade, que já vinha registrando outros casos de violência naquele ano, acordou no dia seguinte com a notícia de mais um homicídio brutal — e este, em especial, tinha contornos de acerto de contas.
Quem era Marcelo Thomazette Flores
Marcelo Thomazette Flores tinha 29 anos na época do crime. As informações públicas sobre sua vida pessoal são limitadas. Não há registros amplamente divulgados sobre sua profissão, sua trajetória ou outros episódios relevantes de sua vida. O que se sabe é que ele foi o alvo de uma perseguição implacável e que sua morte aconteceu dentro de um estabelecimento comercial movimentado, diante de testemunhas que nada puderam fazer para impedir.
Sua história, infelizmente, ficou resumida ao crime que o vitimou. O nome dele, no entanto, passou a circular em noticiários, processos judiciais e conversas de rua. Marcelo tornou-se um símbolo involuntário da violência que marcou Santa Maria naquele período.
Os algozes: três irmãos e uma vingança anunciada
Os agressores eram três irmãos da mesma família, identificados como Vilmar da Silva Flores, Ismael da Silva Flores e Gilmar da Silva Flores. Na época, tinham 25, 29 e 32 anos. Eles não eram desconhecidos da vítima. Havia um histórico de conflito entre eles.
Segundo os próprios depoimentos à polícia, o crime foi motivado por vingança. Dias antes, Marcelo Thomazette Flores teria agredido o pai dos três irmãos. Esse episódio acendeu o estopim. Os irmãos decidiram retaliar. E a retaliação não seria apenas uma briga ou um confronto direto: eles arquitetaram uma perseguição que terminou com Marcelo morto a golpes de facão.
A confissão dos três, feita logo após a prisão em flagrante, deixou claro que não se tratava de um crime passional ou de uma reação impulsiva. Houve perseguição, houve cerco e houve execução. A vingança era o motor. O facão, a ferramenta. A loja de conveniência, o palco do assassinato.
A prisão em flagrante e as primeiras consequências
Os três irmãos foram presos na própria noite do crime. O proprietário do posto e populares os imobilizaram até a chegada das forças de segurança. A prisão em flagrante foi o primeiro passo de um processo que se estenderia por anos.
A partir dali, o caso entrou no sistema judiciário. A denúncia foi oferecida. Os depoimentos foram colhidos. A cidade acompanhava com atenção. Não se tratava de um homicídio qualquer: era um crime cometido por três irmãos, à luz do dia — ou quase, já que passava das 21h —, dentro de um estabelecimento comercial, com testemunhas e com uma motivação clara.
O processo judicial: pronúncia, impronúncia e a batalha no tribunal
Em dezembro de 2019, a Justiça tomou uma decisão que dividiu opiniões. A 1ª Vara Criminal de Santa Maria analisou o mérito da denúncia e decidiu pronunciar apenas Vilmar da Silva Flores, então com 31 anos. Ele seria levado a júri popular pelo homicídio.
Os outros dois irmãos, Ismael da Silva Flores (34 anos) e Gilmar da Silva Flores (27 anos), foram impronunciados. A impronúncia é uma decisão que encerra o processo para o acusado quando o juiz entende que não há indícios suficientes de que ele tenha participado do crime. No caso de Ismael e Gilmar, a Justiça considerou que faltavam evidências de participação direta no assassinato.
A decisão gerou revolta em parte da opinião pública e provocou uma reação imediata do Ministério Público. Para o MP, os três irmãos participaram ativamente da perseguição e do ataque. A impronúncia de dois deles representava, na visão do órgão, uma falha na análise das provas.
A tese de legítima defesa
A defesa de Vilmar da Silva Flores não aceitou a decisão de levá-lo a júri popular. O advogado que representava os três irmãos anunciou que recorreria. A tese central era de que Vilmar teria agido em legítima defesa.
Segundo a defesa, a ação não teria sido um ataque premeditado, mas uma reação a uma situação de perigo. A agressão de Marcelo contra o pai dos irmãos seria o elemento que justificaria a reação. No entanto, essa versão contrasta com a confissão feita pelos próprios réus logo após o crime, na qual afirmaram que agiram por vingança.
A tese de legítima defesa também enfrenta obstáculos: a perseguição até a loja de conveniência, o cerco e os cinco golpes de facão indicam uma ação de execução, não de defesa. Ainda assim, a defesa insistiu no recurso, tentando afastar a competência do Tribunal do Júri e buscar uma absolvição.
O recurso do Ministério Público
Enquanto a defesa de Vilmar tentava evitar o júri, o Ministério Público também recorreu. O objetivo era claro: reverter a impronúncia de Ismael e Gilmar e garantir que os três irmãos fossem julgados pelo Tribunal do Júri.
Para o MP, o recurso estava baseado em forte prova de que houve participação dos três no homicídio. A promotoria sustentava que os irmãos não apenas acompanharam Vilmar até o posto, mas participaram ativamente da perseguição e do ataque. A tese era de que a impronúncia representava um erro e que o júri popular era o foro adequado para julgar a conduta de todos os envolvidos.
O cenário jurídico: recursos cruzados e indefinição
Com recursos de ambos os lados, o caso entrou em uma fase de indefinição. A situação processual era a seguinte:
- Vilmar da Silva Flores: pronunciado, aguardando julgamento pelo Tribunal do Júri, com recurso da defesa pendente.
- Ismael da Silva Flores: impronunciado, com recurso do Ministério Público pendente.
- Gilmar da Silva Flores: impronunciado, com recurso do Ministério Público pendente.
A decisão final sobre o destino dos três irmãos dependeria do julgamento dos recursos pelos tribunais superiores. Até o momento da última atualização processual amplamente divulgada, não havia uma definição definitiva sobre a data do júri de Vilmar ou sobre a eventual reinclusão de Ismael e Gilmar no banco dos réus.
O impacto em Santa Maria
O assassinato de Marcelo Thomazette Flores não foi um caso isolado na noite de 7 de dezembro de 2017. Na mesma quinta-feira, um idoso de 72 anos, identificado como Antônio Rodrigues Lopes, também foi assassinado a golpes de faca em Santa Maria, no bairro Urlândia. O crime de Marcelo, no entanto, teve características que o tornaram particularmente chocante: a perseguição em via pública, a invasão de um estabelecimento comercial e a brutalidade dos golpes desferidos com facões.
A cidade, que já havia enfrentado outros episódios de violência em 2017, viu no caso do posto de combustíveis um símbolo da escalada da criminalidade e da sensação de insegurança que afetava a região central do Rio Grande do Sul. A prisão em flagrante dos três irmãos trouxe um alívio inicial, mas a longa batalha judicial que se seguiu manteve o caso vivo na memória coletiva e nos noticiários locais.
O que se sabe sobre os desdobramentos posteriores
Passados os primeiros anos de tramitação, o caso de Marcelo Thomazette Flores deixou de ter uma cobertura midiática intensa. As informações públicas disponíveis concentram-se nas decisões de 2017 (prisão em flagrante e confissão) e 2019 (pronúncia de Vilmar e impronúncia dos irmãos). Não há, nas buscas realizadas, registros amplamente acessíveis sobre:
- A data do julgamento de Vilmar da Silva Flores pelo Tribunal do Júri.
- O resultado dos recursos interpostos pela defesa e pelo Ministério Público.
- A eventual reinclusão de Ismael e Gilmar no processo.
- Novas decisões que tenham alterado o curso do caso após 2019.
Essa lacuna informacional não significa que o processo parou. Significa apenas que os desdobramentos posteriores não foram amplamente noticiados ou não estão facilmente acessíveis em fontes públicas. Para obter informações atualizadas, seria necessário consultar diretamente o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul ou os veículos de imprensa local que acompanharam o caso.
Considerações finais: um crime de vingança e suas consequências
O caso de Marcelo Thomazette Flores é um retrato trágico de como conflitos interpessoais podem escalar para a violência letal. Uma agressão a um pai transformou-se, dias depois, em uma perseguição implacável que terminou com um homem morto dentro de uma loja de conveniência, sob os olhos de testemunhas que nada puderam fazer para impedir.
A confissão dos irmãos e a alegação de vingança eliminaram qualquer dúvida sobre a motivação. O que restou foi a batalha judicial: de um lado, a defesa tentando sustentar uma tese de legítima defesa que parecia frágil diante das circunstâncias; do outro, o Ministério Público buscando responsabilizar todos os envolvidos.
Enquanto isso, a memória de Marcelo Thomazette Flores permanece associada a esse episódio de violência. Sua vida, interrompida aos 29 anos, tornou-se um número nas estatísticas de homicídio de Santa Maria — mas também um nome que, por algum tempo, esteve no centro de um dos casos mais emblemáticos da criminalidade na região central do Rio Grande do Sul em 2017.



















