O caso Amityville, imortalizado por livros, filmes e lendas urbanas, tem suas raízes em um dos crimes mais chocantes da história recente dos Estados Unidos. Em 13 de novembro de 1974, Ronald “Butch” DeFeo Jr., então com 23 anos, assassinou sua família inteira enquanto eles dormiam em sua casa em Amityville, Nova York. Os seis membros da família foram mortos a tiros em suas camas, sem sinais de luta ou resistência. Esse evento não só abalou a pequena comunidade de Long Island, mas também serviu de base para a famosa narrativa de “A Hora do Espanto” (The Amityville Horror), que alegava assombrações na residência. No entanto, o foco aqui é no crime real: os assassinatos cometidos por DeFeo Jr., suas motivações obscuras e o desenrolar judicial do caso.
Embora o caso tenha gerado controvérsias sobre possessões demoníacas e forças sobrenaturais – amplamente exploradas na mídia –, a realidade é mais sombria e humana: um jovem com histórico de abuso de drogas, conflitos familiares e possível instabilidade mental que culminou em um ato de violência extrema. Motivos como herança financeira, raiva acumulada e uso de substâncias ilícitas foram debatidos, mas nunca totalmente esclarecidos. DeFeo Jr. passou o resto de sua vida na prisão, morrendo em 2021, e o caso continua a intrigar investigadores e entusiastas de true crime.
A Família DeFeo e o Contexto Familiar
A família DeFeo residia em uma casa colonial de três andares no número 112 da Ocean Avenue, em Amityville, uma pacata vila suburbana em Long Island, Nova York. Ronald DeFeo Sr., de 43 anos, era um vendedor de carros bem-sucedido, proprietário de uma concessionária Buick, o que proporcionava à família um estilo de vida confortável, incluindo a casa luxuosa apelidada de “High Hopes” (Altas Esperanças). Sua esposa, Louise DeFeo, também de 43 anos, era dona de casa e cuidava dos filhos.
Os filhos eram:
- Ronald “Butch” DeFeo Jr., o mais velho, de 23 anos, que trabalhava na concessionária do pai, mas tinha um histórico problemático.
- Dawn DeFeo, 18 anos.
- Allison DeFeo, 13 anos.
- Mark DeFeo, 12 anos.
- John Matthew DeFeo, 9 anos (algumas fontes citam 7 anos, mas a maioria confirma 9).
A dinâmica familiar era tensa. DeFeo Sr. era descrito como autoritário e abusivo, especialmente com Butch, que sofria repreensões constantes e até agressões físicas. Butch, por sua vez, era conhecido por seu temperamento explosivo, uso de drogas como LSD e heroína, e problemas comportamentais desde a adolescência. Ele havia sido expulso de escolas particulares e tinha um histórico de brigas com o pai, incluindo incidentes em que apontou uma arma para ele. Apesar disso, a família tentava manter uma fachada de normalidade, com DeFeo Sr. mimando o filho com carros e dinheiro para aplacar suas rebeliões.
Butch trabalhava na concessionária familiar, mas recebia um salário mesmo quando não aparecia, o que alimentava ressentimentos. Relatos indicam que ele roubava dinheiro do pai e tinha acesso a armas de fogo, incluindo rifles e revólveres, que colecionava.
A Noite dos Assassinatos
Na madrugada de 13 de novembro de 1974, por volta das 3h15 da manhã, Butch DeFeo Jr. pegou um rifle Marlin calibre .35 de ação por alavanca e começou a executar sua família meticulosamente. Ele atirou em cada vítima enquanto elas dormiam, todas encontradas de bruços em suas camas, com as mãos acima da cabeça – uma posição que intrigou os investigadores, sugerindo que não acordaram ou não tiveram tempo de reagir.
A sequência dos tiros, baseada em reconstruções policiais:
- Começou pelos pais, Ronald Sr. e Louise, no quarto principal. Ronald Sr. foi atingido duas vezes nas costas, e Louise uma vez.
- Em seguida, foi ao quarto dos irmãos mais novos: Mark e John Matthew, matando-os com tiros na cabeça e nas costas.
- Depois, Allison, que foi baleada no rosto.
- Por fim, Dawn, atingida na nuca.
Todos os disparos foram fatais, e não houve sinais de luta ou de que as vítimas tentaram se defender. Curiosamente, vizinhos não relataram ouvir tiros, apesar da proximidade das casas – um mistério atribuído possivelmente ao silenciador improvisado ou ao barulho do vento, mas nunca confirmado. Butch limpou a cena, coletando cartuchos vazios, roupas sujas de sangue e a arma, que jogou em um riacho próximo. Ele então dirigiu até o trabalho na concessionária em Brooklyn, como se nada tivesse acontecido.
Por volta das 18h30 daquela noite, Butch voltou para Amityville e entrou em um bar local, o Henry’s Bar, gritando que sua família havia sido assassinada. Um grupo de amigos o acompanhou até a casa, onde confirmaram a tragédia e chamaram a polícia.
A Investigação e a Confissão
A polícia de Suffolk County chegou rapidamente e encontrou os corpos exatamente como descritos. Inicialmente, Butch alegou que os assassinatos foram obra de um assassino de aluguel da máfia, citando supostas conexões criminosas da família. Ele mencionou um homem chamado Louis Falini como possível culpado. No entanto, sob interrogatório intenso – que durou mais de 30 horas –, suas histórias inconsistentes começaram a ruir.
No dia 14 de novembro, Butch confessou: “Uma vez que comecei, simplesmente não consegui parar. Foi tão rápido”. Ele admitiu ter agido sozinho, guiando os policiais até o local onde escondeu a arma e as evidências. A polícia recuperou o rifle do riacho e cartuchos compatíveis. Não havia evidências de intrusos ou luta, e testes balísticos confirmaram que a arma era a do crime.
Durante a investigação, emergiram detalhes sobre o histórico de Butch: uso de drogas, roubos e um incidente anterior em que ele ameaçou o pai com uma arma. A polícia considerou o crime o maior número de assassinatos em uma única ocorrência em Long Island na memória recente.
O Julgamento
O julgamento de Ronald DeFeo Jr. começou em 14 de outubro de 1975, no Tribunal Supremo do Condado de Suffolk, presidido pelo juiz Thomas Stark. A defesa, liderada pelo advogado William Weber, optou por uma estratégia de insanidade: Butch alegou que ouvia vozes demoníacas que o mandavam matar, e que agiu em autodefesa, acreditando que a família planejava matá-lo. Psiquiatras testemunharam sobre sua possível esquizofrenia paranoide, influenciada por drogas.
A promotoria, no entanto, argumentou que Butch era um sociopata calculista, motivado por raiva e ganância – ele herdaria a casa e o seguro de vida. Testemunhas relataram sua deterioração relacional com os pais, e Butch testemunhou, admitindo os assassinatos, mas alegando possessão. O júri rejeitou a defesa de insanidade após seis semanas de depoimentos.
Em 21 de novembro de 1975, Butch foi condenado por seis contagens de assassinato em segundo grau. Em dezembro, recebeu seis sentenças consecutivas de 25 anos a prisão perpétua, com possibilidade de condicional. Ele apelou várias vezes, alegando novas evidências (como a suposta participação da irmã Dawn), mas todas foram negadas.
Consequências e Legado
DeFeo Jr. passou 46 anos na prisão, no Green Haven Correctional Facility, em Nova York, onde continuou a mudar sua versão dos fatos – às vezes culpando a irmã, outras alegando múltiplos atiradores. Ele morreu em 12 de março de 2021, aos 69 anos, de causas naturais.
A casa em 112 Ocean Avenue foi vendida para a família Lutz em 1975, que fugiu após 28 dias, alegando fenômenos paranormais – dando origem ao livro “The Amityville Horror” (1977) e ao filme de 1979. Embora muitos considerem as assombrações uma farsa para lucro, o caso gerou uma franquia de horror com mais de 20 filmes e documentários.
Teorias sobre o motivo persistem: abuso familiar, drogas, ganância ou distúrbios mentais. Alguns sugerem que o estresse financeiro e o controle paterno foram gatilhos. Independentemente, o caso Amityville permanece um símbolo de tragédia familiar e mistério, alertando sobre os perigos de conflitos não resolvidos e abuso de substâncias.
Esse episódio sombrio não só marcou a história criminal, mas também influenciou a cultura pop, transformando uma atrocidade real em uma lenda duradoura.







































































































